Da dificuldade, uma arte  

Foto: Vanessa Miyasaka

Foto: Vanessa Miyasaka

Por Simone Andrade

Parafraseando Viníciuis de Moraes,

É melhor ser alegre que ser triste

Alegria é a melhor coisa que existe

[…]

Mas pra fazer uma dança com beleza

É preciso um bocado de tristeza

[…]

Uma dança tem que ter

Qualquer coisa além de beleza

Qualquer coisa que chora

Qualquer coisa que sente saudade

O trecho do poeta resume bem o bailarino carioca Rodrigo Azevedo (23). É a primeira vez que ele vem ao Seminário Internacional de Dança de Brasília. Na verdade, a história de Rodrigo com a dança é recente começou há quatro anos, mas já fez o bailarino e professor Davi Rodrigues se emocionar da mesa dos jurados.

Já no primeiro ensaio supervisionado para a final do Concurso, Rodrigues perguntou a Azevedo se havia algo de pessoal naquela coreografia. Havia, sim. “Pensei em mentir, contar qualquer coisa. Sou uma pessoa alegre, não gosto de passar os meus problemas, parecer que quero contar uma história triste. Fiz uma piada. Mas decidi falar a verdade”, confessou. Rodrigo Azevedo preparou a coreografia em cinco dias. O nome, Adeus. O bailarino contemporâneo perdera a terceira mãe um dia antes de embarcar para Brasília.

A mãe biológica de Rodrigo não pode criar os filhos em função de uma deficiência mental. Ele e a irmã gêmea foram para um orfanato, até que uma prima distante da mãe, mas que vivia relativamente próxima da família, conseguiu a guarda. Rodrigo foi criado por esta segunda mãe. Contudo, há seis anos, ela falecera de câncer de mama. Logo, Rodrigo se via com uma terceira mãe. Mas a história se repetia. Em 14 de julho, um dia antes de vir para o Seminário, a terceira mãe faleceu da mesma patologia.

Homenagem às mães

Na final do Concurso, promovido na última quarta-feira (29/07), Rodrigo não conteve a emoção e, por fim, contagiou a todos. A mensagem ficou muito clara, era o seu adeus. “Engraçado que já se passaram mais de 15 dias e parece que só naquele momento, quando a música tocou, a ficha caiu. Ela não está mais aqui, de novo”, conta.

A música era instrumental, os movimentos contemporâneos eram de despedida. “Quis mostrar também a questão do ‘de novo’, parece que foi ontem e agora acontece outra vez”. Rodrigo chorou na apresentação e o choro foi percebido pela plateia e pelos jurados.

O bailarino conta que teve a sensação de ter visto as duas mães entre ele e os jurados. “Não sei. Pode ter sido alucinação, me senti em transi. Vi uma de cada lado e nesse momento me desconcentrei, não sabia o que sentir. Chorei. Respirei fundo para não comprometer a apresentação, mas saí limpando os olhos e quando cheguei atrás do palco não aguentei. Chorei muito”.

Rodrigo conta que pensou em desistir de vir ao Seminário, mas recordou-se de que não era aquilo que suas mães o havia ensinado. “A luta que passei para me organizar, arrumei quatro trabalhos para juntar o dinheiro. Elas não se orgulhariam se eu desistisse”.

Sobre o Seminário, “quero voltar sempre que possível. Quero ganhar o Concurso, é importante para qualquer bailarino ser reconhecido e acho que sou um bom coreógrafo. Espero repetir o Adeus na Gala de hoje, mais já sei que vou chorar outra vez”, concluiu sorrindo.

Este é um evento da Secretaria de Estado da Cultura do Distrito Federal em parceria com a Associação Cultural Claudio Santoro.

Este evento faz parte do programa DANCE BRASIL.

Para reproduzir as matérias basta somente dar crédito à Agência Dance Brasil.

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