O gol de placa de Fernando Gomes: da bola às sapatilhas

,,,,

Fernando Gomes mostra como a vida pode trazer belas surpresas

Gustavo Cordeiro

repórter da Agência Dance Brasil

O XXIII Seminário Internacional de Dança de Brasília é muito rico em histórias de vida, e a troca entre alunos e professores é sempre proveitosa para todos. O austríaco Sebastian Prantl e o mineiro Alexsandro Guerra (um, professor e coreógrafo de dança contemporânea em Viena e, o outro, professor de dança contemporânea em Roma e Viena, respectivamente) ficaram impressionados com a história de Fernando Gomes.

Desde a primeira aula o rapaz chamou atenção dos profissionais, que sentiam muita energia e talento fluindo. Mesmo não tendo oportunidade para conversar, a identidade corporal entre os três era muito forte. A partir da segunda aula o assunto dramaturgia corporal passou a ser tratado, e a resposta de Fernando às aulas e com relação ao espaço/grupo foi bastante positiva.

Depois de uma semana de aula, mestres e aluno saíram casualmente e Fernando teve a oportunidade de contar a história dele.

O início

Aos treze anos o rapaz já tinha uma carreira promissora no futebol, tendo assinado contrato com o Sport Club do Recife, e especulações sobre ir para a Europa. Enquanto isso, a irmã  dele, de nove anos, era uma promessa no balé, assim como o irmão de dez.

Os irmãos chamavam tanta atenção que uma grande emissora de televisão fez uma matéria sobre eles. Durante toda a filmagem, Fernando era perguntado do porquê de não seguir carreira. Por convicções pessoais, o rapaz não acreditava ser algo que deveria fazer.

Pouco tempo depois, em uma cerimônia de entrega de certificados, o rapaz ficou intrigado ao ver o irmão maquiado e teve certeza de que aquele não era seu mundo. O choque foi tão grande que ele decidiu assistir ao evento longe de todos, isolado em um canto.

No fim da entrega, Gustavo Oliveira – um conceituado bailarino brasileiro que é destaque em Portugal – realizou um movimento chamado “Double tours” (giro duplo). A manobra foi tão bem executada que a única pessoa ao lado de Fernando não parava de exclamar “olha este Double tours, olha este Double tours!”.

Curioso, Gomes se direcionou à diretora da companhia, Mônica Lira, para perguntar o que era “Double tours”, afinal. Quando ele chegou perto, a diretora disse para Gustavo “este é  o rapaz de quem sempre falo, mas que não quer dançar”. Logo, Fernando foi convidado para fazer aula em um projeto social.

Trancado no quarto

Vencido por tanta insistência, Fernando decidiu tentar, porém, no dia de sua primeira audição foi trancado pelo pai dentro do quarto. Mesmo com dois filhos bailarinos, o pai, Luiz Fernando, achava que a dança não era profissão para o mais velho.

Frustrado, passava as noites dançando enquanto assistia vídeos na internet e seguia recomendações da irmã. A próxima oportunidade só veio um ano mais tarde, em 2006, já com quinze anos. Foi aprovado e permaneceu na mesma companhia, em Recife, até os 18, quando decidiu participar de uma seleção para o Balé da Cidade de São Paulo.

Foram 105 inscritos, Fernando se classificou em quinto. Infelizmente eram apenas duas vagas. Suzana Mafra, uma das ensaiadoras, insistiu no bailarino e pediu que retornasse no dia seguinte para fazer a audição da companhia de Ivaldo Bertazzo (que estava viajando). Avaliado por Suzana e outros dois jurados, entrou para o grupo imediatamente e permaneceu pouco mais de um ano.

Durante uma turnê pelo Rio de Janeiro, foi convidado a fazer aulas em uma famosa companhia carioca, experiência que durou quatro meses. “Eu estava no lugar errado, na hora errada. Houve diversos contratempos que hoje me trazem arrependimentos”.  Apesar de tudo, o rapaz reconhece que teve um amadurecimento enorme com a situação.

 O retorno à Recife

O drama no Rio foi tão forte que Fernando considerou abandonar a dança, novamente seguindo os passos dos irmãos: Silvia estuda para medicina e Luiz Gustavo pratica surf.

Desta vez Fernando estava no lugar certo e na hora certa, e encontrou o diretor artístico cubano Luiz Rubén Gonzalez, que o adotou como discípulo, “fazendo a chama voltar a queimar”, confessa o rapaz.

Fernando é um dos solistas da Companhia Ballet Gonzalez e veio para o Seminário, junto com o elenco, para representá-la.

E voltamos ao almoço…

No fim da história, o austríaco Sebastian estava impressionado, nunca ouvirá nada do gênero, e fez questão de aconselhar o bailarino de forma ostensiva e construtiva. Dava para sentir a admiração mútua e a boa vontade em ambos: Fernando em aprender, e o professor em aproveitar o potencial artístico de um aluno dedicado.

Em tempo, a matéria foi escrita no dia 16 de julho. No dia 26, na Gala de Premiação, ele ganhou: Medalha de Prata (nível Profissional, estilo livre), uma bolsa de estudos para o Canadá, concedida pela Cia Lamondance e Prêmio XXIII Seminário Internacional de Dança de Brasília, no valor de R$ 500,00.  Nada mal, para quem correu atrás do sonho e adotou as sapatilhas… Show de bola!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s