TODA A EMOÇÃO DE GUSTAVO GRIS

Gustavo Gris nos braços de Luiz Rubén, numa cena maravilhosa de O Baile de Cadetes - Crédito- Vera Bandeira

Gustavo Gris nos braços de Luiz Rubén, numa cena maravilhosa de O Baile de Cadetes – Crédito- Vera Bandeira

Marcos Linhares

da Agência Dance Brasil

No XXI Seminário Internacional de Dança de Brasília, em 2011, o brasiliense Gustavo Gris brilhou com intensidade plena: dividiu o palco com o bailarino cubano, Luiz Rubén Gonzalez, na Gala de Encerramento do evento, no balé “Baile de Cadetes”; ganhou o prêmio Capézio de Revelação (em dinheiro)  e ainda, ganhou bolsa de um mês para o Conservatório de Praga, na República Tcheca. Gustavo também sempre esteve engajado em questões sociais, tanto que foi professor, como aluno da UnB, do Projeto Educar Dançando, da da Universidade. O projeto existe há 10 anos e atende jovens que se interessam pela dança no Distrito Federal.

Cada  experiência, segundo ele, tem sido inesquecível. De volta a Brasília, Gustavo tem estado em plena atividade, sendo que as mais recentes incluem a participação no elenco da 2a. edição do Festival de Ópera, mais especificamente na Ópera Carmen. Rec[em-formado em Artes Cênicas e em meio a tanto corre-corre, o bailarino achou um tempo e concedeu uma entrevista emocionada e emocionante sobre os caminhos da arte, da dança e da superação.

Entrevista com Gustavo Gris

Em meados de 2002/2003 (ele não se lembra bem ao certo), o brasiliense Gustavo Gris  começou fazendo teatro no ponto de cultura Invenção Brasileira. “O ponto ficava situado em Taguatinga Sul, sob a direção e coordenação de Chico Simões, Walter Cedro e Rose Nugoli, com os quais tive o prazer de me aventurar um pouco nas histórias da cultura popular brasileira e no incrível mundo do teatro de bonecos, em especial o de mamulengos. Desde pequeno, tinha por volta de 12 anos de idade, eu ajudava também nos preparativos do grupo em véspera de espetáculos, costurando, pintando, martelando, limpando, assim como todos os demais colegas que ali estavam: talvez por esse motivo, entre outros, eu me apaixonei de certa forma pelos bastidores do teatro e tive de me virar para acompanhar a rotina. Lembro que era o mais novo do grupo, os outros tinham de 16 anos para mais, gente que já era pai e mãe; eu, pirralho ainda, me acostumei logo cedo a ser `gente grande. Sinto saudades daqueles tempos e também das amizades que ficaram para trás…`”, confessa.

De repente, a dança

Já no ensino médio, em 2006, ele tinha recentemente conhecido uma garota da turma dele que dançava balé  e que por um ano o incentivou para ir até a escola dela e só em fevereiro de 2007 é que foi aparecer por lá. Era a Escola de dança Noara Beltrami, próxima da casa dele. “Eu voltava de uma consulta ao oftalmologista e iria com minha mãe ao clube fazer a rematrícula da natação (amo água!). Algumas quadras antes do clube estava a academia: era 06/02/2007, uma terça-feira ensolarada, e eu acabava de trocar as raias da piscina pelas sapatilhas. A academia era recente, se não me engano não tinha mais do que 5 ou 7 anos de existência, e por conta disso nós tínhamos que juntos fazer as coisas acontecerem. A Noara nos colocava para dançar em qualquer lugar, desde o Eixão, shoppings e parques até os palcos mais populares e renomados da cidade. Ela despertou em mim a paixão pela dança e a vontade de continuar, e por isso eu já não me encontrava mais naquele espaço, faltava conteúdo, faltava disciplina e rigor, já era pouco para o que eu almejava”, relembra.

Goiânia

Depois, ele foi morar em Goiânia, no início de 2010. Ele iria para lá fazer aulas em uma escola estadual de artes. “O contato deu-se por meio da Noara também. Eram já conhecidos dela e tinham me visto dançar em alguns festivais e demonstraram interesse em me ter na escola. Isso só chegou aos meu ouvidos depois que eu estava lá; a iniciativa primeira de ir embora foi minha, e eu ligava escondido para a Alexandra, professora de Goiânia, combinando a minha viagem com medo de que a Noara ficasse chateada. No fim das contas ela acabou me ajudando com algum dinheiro para ir embora. Mas não durou muito tempo, não fiquei um mês sequer e voltei para casa”, revela.

UnB e crianças

Assim que voltou, passou a fazer parte de um projeto social na Universidade de Brasília (UnB). “Antes de concluir o 3º ano do ensino médio, em 2008, eu passei no vestibular para o curso de Artes Cênicas. No projeto conheci a Giséle Santoro (filha) e por meio dela cheguei até a Gisele Santoro (mãe). E então, desde março de 2010, eu continuei os meus estudos no ballet junto às Giséles. Vale lembrar que no projeto eu era monitor de dança, junto à outras colegas que também estudam na Universidade”, diz.

Tia Gi”

Segundo Gris, foi estranho, de início, ter aulas com a “Tia Gi”. ” Recordo-me que em minha primeira aula com ela, ao final, foi me dizer o seguinte: “Meu  filho, você não têm a menor noção do que faz com o seu corpo! Tudo bem, eu já sabia disso, e por isso eu fui procurá-la. Sempre gostei mais de trabalhar com professores e diretores mais ‘durões’, no fundo eles te amam, mas em sala de aula não perdem a compostura e são extremamente exigentes (quero ser assim! – risos). Meses mais tarde, ela já me usava como exemplo: `Olha esse garoto: não sabia mexer os braços e as pernas ao mesmo tempo, hoje já faz o que faz`, e claro que não é o suficiente mas, só uma motivação para continuar a trabalhar cada vez mais. Reconheço que ainda falta muito e que pela minha idade (21) preciso me preocupar. Sou imensamente grato a ela. Eu era apaixonado pela dança mas ainda não sabia dançar. Ela tem me mostrado o caminho”, alega.

Rotina

O dia-a-dia de Gustavo é puxada. “Ultimamente tenho feito o seguinte: estudado muito; trabalho em uma escola particular em Taguatinga Sul e no Riacho Fundo I – dou aula de balé para crianças; o tempo do balé é reservado para todos os dias a noite: quando posso faço aulas  e ensaios com a Tia Gi e com a Antonieta (também é aluna da Giséle, também é professora de dança-educação, e tem um grupo de dança contemporânea do qual faço parte). É puxado sim, cansa muito e as vezes o excesso de atividades me atrapalha na dança, porque é no fim do dia e eu já não consigo render tanto devido ao cansaço. O que é mais chato é ficar pegando ônibus o tempo inteiro. Tem dias que eu chego a pegar oito transportes para fazer tudo. As meninas do balé sempre que podem dão carona, pelo menos até a rodoviária”, confidencia.

O XXI Seminário 

Gustavo adora recordar 2011. “O XXI Seminário Internacional de Dança foi uma das várias surpresas que me aconteceram naquelas férias’ (troquei elas pelas aulas de balé e pelos ensaios! valeu muito apena, não me arrependo). Tia Gi me deu uma bolsa para participar. Assim pedi a permissão dela para fazer a audição do balé que foi apresentado na Gala de Encerramento. Errei bastante durante aula, foi a primeira audição que fiz mas, fiquei muito feliz quando soube que mesmo assim tinha sido escolhido para interpretar um dos papéis de maior destaque de “O Baile dos Cadetes”, a Governanta. Um papel que demanda muito mais da interpretação do bailarino, porque deve ser feito por um homem e não por uma mulher, do que a dança propriamente dita. A experiência com o teatro favoreceu bastante o meu trabalho. O balé foi remontado e dirigido pelo Diretor do Conservatório de Praga, Jaroslav Slavick. A quem devo meus sinceros agradecimentos pela oportunidade e pelo aprendizado naquelas três semanas junto a ele e aos tantos outros colegas do Brasil inteiro que juntos, formamos um elenco de aproximadamente 40 pessoas. Conheci pessoas maravilhosas, com quem eu já mantenho contato por meio da internet e espero revê-los mundo a fora. O balé foi um sucesso, uma energia inexplicável, uma sensação que, somente quem está sob a luz dos holofotes, pisando sobre o palco da sala mais tradicional de espetáculos de Brasília, ao som da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro, pode arriscar dizer alguma coisa, correndo o risco de não contemplar cada detalhe e cada segundo de alegria que nós sentimos naquele momento. É o grande mistério de toda arte: trabalhos exaustivos, que demandam inteira dedicação, horas e mais horas de ensaio, treinamentos diários nas aulas de balé, machucados, lesões superadas, ou não, mas, recompensados pela felicidade de estar naquele instante único”, pondera.

Bastidores de O Baile de Cadetes

Poucos sabem o que se passa na preparação de um grande espetáculo. “Uma amiga, Julia Gunesch, que estuda comigo e trabalha com maquiagem me ajudou na produção da personagem. Dançamos no domingo mas na sexta-feira anterior a ele tivemos um ensaio geral em que tivemos a oportunidade de experimentar a maquiagem e outras coisas mais. Levamos cerca de 2h30 para me deixar `pronta`. A peruca estava muito bem presa, com grampos de cabelo mesmo, mas doía muito , eu não tinha ainda trabalhado com nada parecido. O peso da roupa dispensa comentários, era gigante. Mas valeu a pena o sacrifício, que no fim das contas nem foi tão difícil assim. Eu faria quantas vezes mais fossem preciso”, enfatiza.

Oportunidades

Gris diz que o Seminário é, há mais de 20 anos, uma enorme porta para tantos e tantas que sonham em construir uma carreira principalmente no exterior. “Afinal, ainda que existam algumas companhias no Brasil que ofereçam estrutura necessária para a consolidação de uma carreira artística, da qual o bailarino possa de fato sobreviver, mesmo assim são poucas para atender à demanda de talentos brasileiros. Comparado ao número de companhias estrangeiras e o apoio que elas recebem. Pensar na possibilidade de um dia  ”não ter mais o Seminário’ é assumir que muitos de nós ficarão a mercê da falta de vontade dos desinteressados, dos que poderiam estar fazendo algo em prol da cultura brasileira mas… Guerreira mesmo é a Tia Gi, e nem precisa dizer o porquê não é mesmo!?’”, questiona.

Praga

E como muitos já tiveram a chance deles, desta vez Gustavo teve a dele. Foi contemplado com o prêmio de revelação do XXI Seminário além de um estágio para o Conservatório de Praga. “Oferecido também pelo Jaroslav. O estágio teve a duração de dois meses, com início em janeiro de 2012, e foi incrível”, aponta.

Preconceito

Gris fala que ser bailarino ainda atrai muita discriminação. “Graças a Deus o capítulo do preconceito não existiu aqui em casa, e se existiu ‘pouco me importa’. Quero mesmo é que sejam felizes os meus ‘coleguinhas’ que desdenhavam de mim. Eu estou muito feliz e realizado, eles eu já não sei.  Creio no seguinte: Deus só nos permite aquilo do que somos capazes de alcançar! Vale a pena todo o sacrifício! Me cansa sair pelas ruas e ver o tanto de gente infeliz, mal realizada porque trabalham insatisfeitas. Chega. Foi ótimo ir para fora e trabalhar dançando/interpretando, as duas áreas dialogam, se completam, mas confesso que desejo muito mais dançar. Em Praga também estão umas das melhores escolas de cenografia e indumentária do mundo, de forma que também pude me aprofundar nos bastidores do teatro, e quem sabe, quando corpo não aguentar mais a rotina dos ensaios, eu possa trabalhar com isso”, discorre.

Sonho

O bailarino quer continuar a ajudar mais e mais pessoas pela arte. “Tenho vontade de ter um projeto social de arte-educação, dentro de presídios e fora deles com os filhos dos detentos, fazendo uso da arte, do ballet, do teatro, como instrumentos de transformação, reconhecendo outras possibilidades que não somente a arte pela arte”, sonha.

Ídolos, Referências:

Ele aponta vário nomes como exemplos: “Jose Martinez (Paris Opera Ballet), Manuel Legris (Paris Opera Ballet), Angell Corella  e Jose Manuel Careño (American Ballet Theatre), Ivan Vasiliev e Natalia Osipova (Bolshoi), Glauber e Matheus (Alunos do projeto da UnB – Educar Dançando; hoje estão na Alemanha); São Francisco de Assis e Tia Gi”, finaliza.

Este é um evento da Secretaria de Estado da Cultura do Distrito Federal em parceria com a Associação Cultural Claudio Santoro.

Este evento faz parte do programa DANCE BRASIL.

Para reproduzir as matérias basta  somente dar crédito à Agência Dance Brasil

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